domingo, 12 de julho de 2009
Histórica caneta
O pecado da comparação
O norte-riograndense Luiz da Câmara Cascudo, que foi um dos brasileiros mais sábios de sua geração, não gostava das comparações. “Em verdade vos digo que a comparação é o oitavo pecado mortal”, assinalou ele, em uma crônica. E mencionou muitos exemplos, como estes três que transcrevo a seguir:
1- “Duas coisas iguais e uma terceira são iguais entre si. Pode ser coisa abstrata, convencional, número, risco. Materialmente nada é igual entre si. Nem duas gotas de sangue, nem duas folhas da mesma árvore, nem dois fios do mesmo cabelo. Diferenciam-se formal e forçosamente.”
2- “Comparar-se uma civilização com outra, um país com outro, é tentar medir um cataclismo. As ondas do mar são idênticas em substância, mas nenhuma repete a forma anterior.”
2 - “No grupo humano a diversidade é infinita e descobriram que no próprio indivíduo não há dois momentos num dia em que ele esteja igual, isto é, semelhante psico e fisiologicamente ao que estava dez ou vinte horas antes.”
O velho mas viçoso canteiro
Computador sugere modernidade. O jargão do computador, ditado pelo idioma inglês, busca raízes, no entanto, no latim, que se supõe língua morta. São termos em inglês, mas vinculados etimologicamente ao latim, como é o caso de “enter”, “delete” e “page”, entre outros.
Muitos outros termos usados hoje no Brasil com as pessoas supondo de origem anglo-saxônica originaram-se na verdade, no mesmo canteiro idiomático no qual o português, que é língua neolatina, possui suas raízes. Canteiro que deu as flores do Lácio, para mencionarmos imagem do poeta Olavo Bilac. Chamado de língua morta, o latim na verdade não morreu, se considerarmos que se transplantou para o organismo dos outros idiomas, a fim de que estes vivessem.
Quem dá muito valor ao inglês e se horroriza a uma simples menção sobre a eterna importância do latim, na verdade não conhece bem o idioma inglês – e não sabe perceber que ele se tornou uma língua rica porque, além das fontes anglo-saxônicas, redimensionou a sua estrutura etimológica incorporando vasto vocabulário de origem latina.
Senado tem de tirar o carnegão
Contraditório o raciocínio do presidente Lula, exposto na reunião com os senadores do PT, de que poderia a instituição padecer crise de conseqüências imprevisíveis se José Sarney sair da presidência. Pois não é a presença dele no comando da Mesa Diretora o principal fator da crise?
Carnegão é um termo feio, pois se associa a dor, pus e tecido necrosado. Mas aqui vale para uma comparação: furúnculos não se curam e não se cicatrizam sem se extirpar o carnegão.
No caso do Senado, José Sarney é como o carnegão. Sem removê-lo, não se aliviará a crise, pelo contrário, ela continuará se agravando.
Não parece ser nada bom também para o relacionamento entre os Poderes esta interferência do chefe do Executivo numa questão que diz respeito ao Senado. Não se vê isso em democracias fortes, nas quais se respeitam mutuamente os Poderes Executivo e Legislativo.