O número de servidores comissionados – admitidos sem concurso público e por tempo indeterminado – supera o de efetivos em órgãos do Poder Executivo e no Legislativo de 156 municípios do Estado (63% das 246 cidades), mostra levantamento feito pelo Ministério Público Especial do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM). Apesar da determinação da Constituição e do Supremo Tribunal Federal (STF) para que os funcionários sem concurso não ultrapassem os 50% dos efetivos, o total de comissionados chega a ser 5.700% superior ao de concursados – é o caso da Orquestra Sinfônica do Município de Goiânia (veja quadro).
Entre órgãos e poderes irregulares, mais da metade (81) são câmaras municipais e 22 são prefeituras. Do que resta, a maioria está ligada às áreas de Saúde e Assistência Social. Se for levado em conta o total de contratos, o número de comissionados pode chegar a até 98% dos funcionários.
Segundo o levantamento, em 17 municípios o número de comissionados em órgãos do Executivo e no Legislativo está mais de 1.000% acima do que o total de efetivos. Além de Goiânia, estão na relação, entre outros, Itumbiara, Mineiros, Rio Verde (em três órgãos), Águas Lindas de Goiás, Trindade e Nerópolis. Em apenas 8 dos 156 municípios – 5% –, a desproporção está próxima dos 50% aceitos em lei.
Orquestra
Segundo a lei brasileira, músicos não poderiam assumir cargos em comissão já que não entram nas situações já mencionadas de chefia, direção e assessoramento. O secretário de Cultura, Kleber Adorno, informa que não discutiu a realização de concurso público para os músicos com o prefeito Iris Rezende (PMDB), mas afirma que a abertura de vagas não está descartada.
O secretário diz ainda que a orquestra tem uma condição diferenciada. “No Brasil inteiro as orquestras são formadas por comissionados, em razão do número baixo de músicos e da alta migração dos mesmos. Eles mudam com frequência de cidade, para estudar ou para integrar outro trabalho. E se sai um músico, ele precisa ser substituído imediatamente, sob pena de não termos uma orquestra completa”, esclarece Adorno.
A Câmara de Morrinhos aparece em segundo lugar na lista de órgãos municipais com excesso de comissionados – 5.100%. Dos seus 52 servidores, apenas um é concursado e responde pela secretaria-geral da Casa. O restante – entre eles auxiliares de limpeza e administrativos e telefonistas – é selecionado pelo próprio presidente ou através de indicações dos vereadores.
O presidente da Câmara de Morrinhos, Ronaldo Romero (PRB), diz que já está em contato com o promotor da comarca para firmar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que garanta a realização do concurso público. “É nosso interesse fazer o concurso e regularizar a situação, mas preciso esperar a votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que propõe o aumento do número de vereadores (que está parada na Câmara) e diminui a receita das Câmaras. Só depois disso que vou saber quantos funcionários a Câmara vai poder pagar”, diz Romero.
Rio Verde
O município de Rio Verde aparece quatro vezes entre os 15 primeiros órgãos municipais em que os comissionados são maioria no quadro de servidores, mostra o levantamento feito pelo Ministério Público Especial do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM). A reportagem não obteve retorno da assessoria do prefeito Juraci Martins (DEM) sobre a questão.
O levantamento do TCM aponta a existência de mais comissionados do que servidores efetivos em 182 órgãos municipais. A desproporção está em desacordo com a Constituição Federal, que determina que cargos sem concurso se restrinjam a funções de confiança.
A situação da Câmara de Trindade também chama a atenção no levantamento. Dos 65 servidores que contratados em agosto de 2008, apenas 3 são efetivos – o chefe do Departamento de Pessoal, o responsável pelo Controle Interno e o procurador. Segundo o presidente, Antônio Carlos (PSDB), este é outro caso de órgão público onde motorista, telefonista, auxiliar de limpeza, entre outros assumem cargos comissionados.